sexta-feira, 17 de novembro de 2017

São João e a Conduta Maçónica...

Quando se fala em São João pensa-se por mera associação lógica que deverá se tratar de um único João. Mas não posso falar apenas de um pois não se trata de um João só, nem mesmo apenas de dois. 
São João Baptista e o São João Evangelista são os “habituais” Patronos da Maçonaria; mas no decurso da minha investigação para a execução deste Trabalho, “descobri” um outro João, um terceiro São João. Um que é conhecido tanto por “São João de Jerusalém” como por “João, o Esmoler”.

Por isso vou tentar abordar um pouco as características maçónicas de cada um e tentar chegar a uma conclusão “que se não o for, bem o poderia ser”.

Comecemos a análise portanto:

São João, O Baptista, primo de Jesus, foi o profeta que anunciou a sua vinda, e  foi lhe consagrado pela Igreja de Roma o dia 24 de Junho.
Chamavam-lhe de “ o Baptista” porque ele baptizava os gentios nas margens do rio Jordão e os tentava converter à religião Judaica, a religião do Deus único de Moisés e de Abraão. Ele com o seu baptismo, iniciava os gentios, sendo por isso um “iniciador” de pessoas. Ele próprio baptizou, iniciou Jesus.

João Baptista é considerado também como um “anunciador”, pois também ele previu a chegada de um Messias, o Cristo que iria salvar a Humanidade.

Ele no percurso da sua vida ensinava as pessoas a serem humildes, a renunciarem a si próprias (submetendo as suas vontades aos seus deveres e a evitarem o Egocentrismo) e a pensarem e a preocuparem-se mais com os seus semelhantes (princípios éticos que Jesus Cristo também assumiu ao longo da sua vida).

A sua conduta passava pela justiça dos seus actos, a humildade e a ascese com que levava a sua vida; ele próprio chegou a pregar no deserto. O próprio silêncio que envolve a “caminhada no deserto” está associado ao silêncio a que está sujeito também o Aprendiz Maçom em Loja.

João Baptista era intolerante com a fraqueza e denunciava sistematicamente os vícios e a iniquidade a que assistia ao seu redor. Atitude esta que também o Maçom deve tomar, combatendo os seus vícios e paixões, sendo humilde e inimigo da fraqueza.

E foi em consequência dos seus ideais que João Baptista foi aprisionado por Herodes Antipas em Jerusalém, que num torpor de amor pela sua enteada Salomé o mandou decapitar.
Essa decapitação, em Maçonaria está (na minha opinião) simbolizada também num determinado juramento e sinal executado pelos Maçons. No qual o Maçom prefere ter a sua garganta cortada do que referir os segredos que lhe foram confiados. Sigilo este simbolizando o silenciar dos "segredos" que qualquer Maçom está obrigado a cumprir sobre tudo o que oiça e veja em Loja.

João Baptista ao querer permanecer fiel aos seus princípios pagou cara a sua postura. Essa verticalidade, essa rectidão e integridade de princípios são hoje em dia um dos deveres dos Maçons que se querem Homens rectos e de boa conduta; estando essa qualidade simbolizada na jóia do Segundo Vigilante, o “prumo”.

Um facto curioso é que o próprio vestuário de João Baptista, a sua túnica, está também representada no avental do Aprendiz, na pele de cordeiro (branco) de que é feito o material do mandil do Maçom.

Os Maçons, devido à sua Iniciação, também se consideram filhos da Luz, tal como os Essénios, membros da comunidade de Qumran à qual João Baptista também pertencera na sua juventude. O juramento que era feito pelos Essénios, e por sua vez também por João Baptista, era de amar a Deus, de justiça misericordiosa para com todos os homens e pureza de carácter, o que implicava humildade, praticar o bem e a verdade, relegando a falsidade e a malícia; tendo eles uma enorme reserva sobre os seus rituais e doutrinas secretas em relação a estranhos. Características assumidamente maçónicas. 
-A própria Maçonaria as tenta inculcar nos seus membros.-
         
Quanto a São João, O Evangelista, ele foi um dos discípulos e Apóstolos de Jesus Cristo, sendo considerado por alguns teólogos como o discípulo preferido.

É considerado como " o Evangelista" porque escreveu um dos quatro evangelhos canónicos aceites pela Igreja de Roma, que talvez de todos os evangelhos conhecidos seja o Evangelho com maior pendor simbólico e esotérico. Estando contido nele o Livro das Revelações, o “Apocalipse”.

João Evangelista quis deixar uma mensagem de Paz e Amor ao Homem, a palavra que Jesus Cristo professava, sendo por isso considerado como o “Apóstolo do Amor”.

Também em Maçonaria se deseja esse amor, o “amor fraternal” entre os Homens, que se querem Irmãos entre si.

A conduta e forma de estar de João Evangelista, a sua pureza e inocência (era o mais jovem dos apóstolos), a sua amizade e lealdade a Jesus até à sua morte, também nos mostra como nós, Maçons, devemos seguir tais ensinamentos nos nossos relacionamentos e conduta de vida bem como nos mantermos fieis aos bons princípios morais que devem guiar as nossas vidas e atitudes.

Após a morte de Jesus na cruz, João Evangelista ficou encarregado de cuidar de Maria, mãe de Jesus. Sendo que à época, Maria seria já viúva. 
Por analogia com a Maçonaria, João Evangelista tomou às suas responsabilidades a viúva, tal como os Maçons devem fazer com as viúvas de seus irmãos.

E também ele, tal como João Baptista, sofreu na sua pele a firmeza e integridade em seguir os seus princípios, os ensinamentos de Jesus Cristo. Tendo sido martirizado pelo Imperador romano Domiciano, que mais tarde o desterrou para a ilha de Patmos, onde lá permaneceu até à sua morte. Com essa postura de mártir, João Evangelista deu mais um exemplo a ser seguido pelos Maçons, o de serem firmes na sua conduta e persistentes no seu desejo de aperfeiçoamento até ao fim da sua vida.

Enquanto João Baptista, foi o “preparador e o anunciador”, logo o iniciador; João Evangelista, simboliza o iniciado que recebeu a luz e que a partilha e a emana sobre os demais. Sendo esse também um dever do Maçom em relação aos seus Irmãos, partilhando a sua sabedoria e experiência de Vida, os ensinando e aconselhando.

Por sua vez, São João de Jerusalém, ou O Esmoler; ele nasceu na ilha de Chipre por volta de 550 e devido à sua formação cristã e atitude solidária e caridosa deslocou-se para Jerusalém a fim de construir um hospital que socorresse os peregrinos que acorriam à Terra Santa nessa altura.

João Esmoler era contemporâneo das cruzadas que eram lideradas pelos cavaleiros Templários e neles se inspirou para exercer a sua solidariedade e hospitalidade para com o seu próximo.

Ele em vida, seguindo os preceitos templários como paradigmas da sua conduta, fundou uma Ordem de Cavalaria, a Ordem dos Cavaleiros Hospitaleiros, que mais tarde se alterou para Ordem dos Cavaleiros de Jerusalém, porque apesar da sua missão principal fosse receber e prestar cuidados médicos aos doentes, eles auxiliavam também os cavaleiros Templários nas suas incursões pela Terra Santa.

Mais tarde João Esmoler, regressaria ao Chipre, porque existia o risco de invasão da ilha pelas tropas turcas. Aí, ele viria a fundar a Ordem dos Cavaleiros de Malta, que para além da função hospitaleira e médica, tinha também funções de protecção e manutenção da paz. Apesar de serem uma Ordem Militar, não conseguiram conter as hostes turcas que invadiram a ilha.

Após o seu falecimento, o Papa em reconhecimento das suas acções e virtudes, o canonizou com a designação de São João Esmoler, apesar de ficar mais conhecido como São João de Jerusalém, por lá ter vivido grande parte da sua vida. 
Como o Papa o santificou, os cavaleiros Templários que tinham um enorme respeito e reverência por ele, o tomaram como seu patrono. 
De tal forma que a Maçonaria, herdeira também das tradições templárias, assumiu os seus ensinamentos e os tenta seguir, aproveitando a Maçonaria o facto de João ser considerado o “esmoler” e essa qualidade estar premente na conduta maçónica, na qual o Maçom deve ser caritativo e hospitaleiro, bem como solidário com o seu próximo. Glorificando-o a Maçonaria, através da designação de uma das funções atribuídas aos Oficiais de Loja, o de Irmão Hospitaleiro ou Mestre Esmoler (minha opinião).

Também Janus, o deus pagão das duas faces, está intimamente ligado a São João e à Maçonaria. 

Janús é o deus que dá origem ao nome do mês “Janeiro”, o primeiro mês do calendário cristão. Janeiro deriva da palavra latina “janua”, ou “porta”. E porta, por sua vez, é também o significado da letra grega “delta” que tem forma triangular e que em Maçonaria representa o Divino e em Loja está sobre a cadeira de Salomão, a cadeira do Venerável Mestre.
A dupla face de Janus simboliza também os dois "Joãos", o Baptista e o Evangelista. E como tal, na dupla face de Janus, a face voltada para o passado simboliza o Baptista, pois ele anuncia a vinda do Messias, e a face virada para o futuro simboliza o Evangelista, pois ele foi anunciador da palavra de Cristo.

Contudo, Janeiro é o mês que dá início a um novo ano, um renascer (futuro); para trás ficou o ano que findou (passado). Também a este deus estão subordinadas as Iniciações.
No ritual da Iniciação, também o candidato e recém neófito, tem um renascer, ele na Câmara das Reflexões, deixou o seu passado através da sua morte simbólica, e no fim da sua iniciação quando ele finalmente vê a Luz, ele está também nesse momento a ver o seu futuro, um futuro “iluminado”.

O próprio nome de Janus, na sua forma latina (Johannes), significa João.
E a similitude dos dois nomes é tal que um foi absorvido pelo outro, na cristianização (conversão forçada) dos povos pagãos.

Para além de que João, na sua forma hebraica (Jeho-hannam), significar “graças ou favor a Deus”. Ou seja, homem iniciado e iluminado. Assim uma Loja de São João, é local de reunião de um agrupamento de Iniciados, homens iluminados e favorecidos espiritualmente. Tal como se querem os Maçons. Sendo justo atribuir-lhes o epíteto de “irmãos de São João”.

As próprias Lojas Simbólicas, as Lojas que administram os três primeiros graus da Maçonaria, consagram os três São Joãos.
Elas se designam por “Lojas de São João”, em honra de João Baptista; sendo as mesmas abertas e dedicadas (ao G.A.D.U. e) a São João de Jerusalém, tal como o questionário feito ao Maçom à entrada de uma Loja, onde lhe é questionado ritualmente de “Onde vem?”.
Bem como, numa sessão de uma Respeitável Loja que siga o Rito Escocês Antigo e Aceite (o rito da nossa Respeitável Loja), se o Livro da Sagrada Lei for a Bíblia, ela se encontrará aberta na primeira página do “Evangelho de João”, honrando assim João Evangelista. Nela se encontram escritos os versículos:

No início era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele e, sem ele, nada existiria.
Nele estava a vida, e a vida era a Luz dos homens.
A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”.

A Bíblia ou outro qualquer livro sagrado (em Maçonaria Regular, são obrigatórios) estão sempre presentes, lembrando aos Maçons que eles devem ser crentes numa entidade/divindade superior a eles (e não ateus estúpidos tal como Anderson os considerava, nas suas Constituições…); sendo este um dos Landmarks da Regularidade Maçónica. Mas também demonstram estes versos em particular, a vitória da luz sobre as trevas, tal como sucedeu ao neófito na sua Iniciação ao grau de Aprendiz Maçom.

João Baptista e João Evangelista também estão representados em Loja, através das duas rectas paralelas que delimitam o círculo com um ponto no seu interior, com a Bíblia aberta sobre elas. Essas rectas para além de significarem os limites de acção do Maçom, persistindo ele em se manter fiel aos seus preceitos, não devendo ter receio em falhar; significam também que a consciência religiosa do Maçom é inviolável, devendo ele glorificar o G.A.D.U.

A invocação a São João Baptista e São João Evangelista em Maçonaria, tem origem na Maçonaria Operativa, uma vez que ambos os santos são patronos das guildas de pedreiros e profissões ligadas directamente à arte da construção (Ars Structoria) que existiam entre os séculos X e século XIV.

Mais tarde, da união de quatro lojas/guildas existentes na cidade de Londres, veio-se a formar a primeira Grande Loja de Inglaterra. Que teve como data de fundação o dia de São João Baptista de 1717, e a Grande Loja Unida de Inglaterra (que já integrava então a fusão da primeira Grande Loja de Maçons e a Grande Loja dos Modernos, sendo o culminar do cisma entre Antigos e Modernos) estabelecendo-se no dia de São João Evangelista em 1813; tendo São João Baptista um papel iniciador simbólico e São João Evangelista um papel finalizador, na fundação da Maçonaria Especulativa Regular no Mundo.

Concluindo, João Baptista e João Evangelista, apesar de diferentes entre si, estão intimamente ligados, tal como o terceiro, João Esmoler, os complementa; formando assim uma trindade joanina que se espelha num único São João global.
E visto que a Maçonaria salienta as qualidades e virtudes de cada um deles, imprimidas na atitude que se espera de um Maçom, o ser hospitaleiro, fraterno e protector de seus irmãos e suas famílias, íntegro nos seus princípios de boa moral, firme na sua luta contra as suas fraquezas, ser bom conselheiro, levando a luz/conhecimento aos outros…
Pode-se fazer a afirmação de que a Maçonaria tem um forte cariz e pendor joanita na conduta que deseja para os seus membros, sendo plenamente justificada a escolha dessa trindade de "São Joãos" para seus patronos.


Bibliografia:
·         Anderson, James, “As Constituições dos Franco Maçons", Ed. Campo da Comunicação.
·         Audoum, Jorge, “El Aprendiz e sus Mistérios”.
·         “Bíblia Católica Online” @ http://www.bibliacatolica.com.br
·         Carneiro, Jeová Neves, Prancha “O Evangelho de São João e o Salmo 133”, Revista “Arte Real Nº41”.
·         Castellani, José, Prancha “Porque São João, nosso padroeiro?”, Revista “Arte Real Nº4”.
·         Costa, Walter Veneziani, Prancha “São João e a Tradição Maçónica”.
·         Dellazzana, Flávio, Prancha “O verdadeiro Patrono da Maçonaria” @ http://www.maconaria.net/portal
·         Freitas, Eduardo, “Manual do Aprendiz Maçom”,
·         Martin-Albo, Miguel, “A Maçonaria Universal”, Bertrand Editora.
·         Meireles, Paulo, Prancha “De uma Loja de São João” @ http://www.rlmad.net
·         Naudon, Paul, “A Franco Maçonaria”, Edições Europa-América.
·         Rehder, Guilherme, Prancha “São João, Padroeiro da Maçonaria”, Revista “Arte Real Nº28”
·         “Ritual do Aprendiz Maçom”, GLLP/GLRP.

·         Sbaragia, Giselda, Prancha “Os Essénios”, Revista “Arte Real Nº28”.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

"Questionamentos"...

Quem somos? Ou o que somos? E porquê!?
De onde vimos?
O que fazemos por lá?
O que vimos então aqui fazer?
O que trazemos nós, então?!

Estas questões para alguém reconhecido como maçom, e que se considere como sendo um Aprendiz para o resto da sua vida, são a chamada "linha de partida" para o Caminho que pretenderá fazer.
São estas dúvidas que servirão de sustentáculo àquilo que procura. Pois serão essas dúvidas que o motivarão a atingir a meta daquilo a que se propõe a cumprir.

Ritualmente ou religiosamente, todas elas terão resposta; respostas essas que qualquer Aprendiz Maçom conhece desde a sua Iniciação. Mas, na realidade, estas questões que cito nada mais são que as premissas para a nossa Caminhada na Vida e no mundo em que vivemos.

Apenas nos questionando e questionando o mundo à nossa volta é que poderemos ir mais longe!

Qual a nossa Identidade?
Qual a nossa Origem?
Quais os nossos Deveres?
O que poderemos fazer para evoluir, melhorar?
O que poderemos fazer para sermos úteis aos outros?

Talvez, as "primeiras" questões que abordei sejam apenas, vistas sob um outro "prisma", as mesmas que agora efectuei.

E mesmo dessas "primeiras" questões e/ou até mesmo das "segundas", poderemos encontrar outras que por sua vez nos permitam fazer as reflexões que importam ser feitas.

A este questionamento que aqui faço, por meio destas, aparentemente, simples perguntas, não me atrevo eu a responder. Pois as suas respostas tal como o meio para as obter são parte integrante do Caminho.

Eu já encontrei as minhas respostas. 
Os outros que tentem obter as deles...

Sei quem sou e porque o sou!
Sei de onde vim e o que por lá faço!
Conheço os meus deveres e obrigações!
E ofereço aquilo que posso oferecer sem nada esperar em troca! 

Para mim, estas, já não são dúvidas... Apenas certezas!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

"Dilemas maçónicos..."

Ao longo da vida de um maçom, ele irá ser confrontado com vários tipos de dilemas e situações em que terá de reflectir sobre as decisões a tomar e a responsabilizar-se pelo que decidir e optar.

Neste texto em concreto, irei abordar apenas alguns dos potenciais "dilemas" que serão possíveis de aparecerem ao longo do percurso de uma "vida maçónica".

Naturalmente que não irei responder a nenhuma das questões ou dilemas que irei apresentar porque a ideia é levar à reflexão sobre as mesmas e as ditas respostas apenas poderão ser dadas e concretizadas por quem por estes dilemas passar. E portanto, tal poderá diferenciar de pessoa para pessoa como de situação para situação.
E como tal acção "reflexão/execução" é do foro privado de cada um, considero apenas que tal deve ser feito da melhor forma que considerem que lhes serve e com a qual se sintam melhor, por forma a não se prejudicarem nem a prejudicar terceiros.

Deste modo passarei a citar potenciais dilemas que existem ou poderão vir a surgir durante a caminhada maçónica a que se proporá um maçom a fazer:

* Encontrando-se um maçom há tempo considerado suficiente para progredir (subir de Grau) e tal ainda não ter sucedido, por questões que lhe sejam alheias...

* Pertencer ao quadro de obreiros de uma Respeitável Loja e já não se identificar com a generalidade dos seus membros...

* Estar numa Obediência, mas sentir que deve prosseguir o seu caminho noutra que não a original...

* Auxiliar na fundação de uma nova Respeitável Loja e consequentemente não ter a certeza em qual ficar a pertencer em "exclusividade"...

* Se sentir desapoiado ou desintegrado da Respeitável Loja que o acolheu, mas pretender continuar a seguir uma vida na Maçonaria...

* Ter atingido o grau de Mestre e não saber decidir se deve optar pela continuação dos seus "estudos maçónicos" nos designados "Altos Graus" ou "Graus Filosóficos"...

* Ter entrado numa Ordem Maçónica e ter afinal chegado à conclusão que não se identifica com a sua substância, mas que se sente integrado e gosta de conviver com os seus "Irmãos"...

Estas questões que acima apresentei são, por certo, dilemas que um maçom poderá vir-se a debater, seja na sua totalidade ou em parte. E saber o que fazer é que será o busílis da questão.

Não será fácil decidir sobre tal, mas também não poderá tal ser feito de uma forma intempestiva dadas as consequências que por norma advêm de tais decisões.
Estas decisões ou escolhas deverão ser feitas após uma reflexão extensiva e ponderada, por forma a que nada nem ninguém saia beliscado com a decisão final a ser tomada.

-Não existe acção sem reacção, já o afirmava Newton...-

 E gerir este tipo de situações, enquadrá-las como deverão ser feitas, sem melindres ou condicionantes, será difícil o fazer, apesar de não ser impossível tal. Respeito e Amor Fraterno serão essenciais para levar a bom porto qualquer decisão que venha a ser tomada e executada!

O melhor conselho que posso dar a quem passa ou puder vir a passar por alguma das situações que abordei é que um processo reflectivo aprofundado e debatido com quem nos tiver mais próximo e também que nos possa elucidar sobre o tema é sempre bem-vindo, pois trará alguma "luz" à situação. 
Mas, importa ter em atenção que a decisão a ser tomada deve impreterivelmente ser confortável para quem a toma. Uma vez que é fundamental  que quem decide deve estar de bem consigo e com o seu "espelho", e não obstante, se sentir integrado e apoiado na decisão que vier a tomar, seja ela qual for. 
Isto é deveras importante, pois é normal sempre surgirem opiniões adversas que colidam com o interesse de quem tem de decidir o que fazer e/ou o caminho a tomar. Pois a vida é feita de acções/atitudes, tanto que as palavras são usualmente levadas pelo vento.

É preciso sentir, reflectir e por fim, decidir. 

Se bem, se mal, apenas o tempo o poderá demonstrar, mas queira o Grande Arquitecto do Universo iluminar com a sua sapiência quem passa por estas situações, pois de facto não são fáceis por quem por elas passa ou tem de passar. O apoio dos seus Irmãos será crucial nesse processo reflectivo e consequente acção.

Mais que tudo, o importante é se estar confortável (como já afirmei) com a decisão e que nos sintamos bem no local onde estivermos ou no sítio onde viermos a estar a pertencer. Nada será mais relevante que isso.

Por isso meus queridos e estimados Irmãos, se passarem por alguma destas situações que abordei, pensem, repensem, clarifiquem e somente depois façam!
O resto virá por si…


PS: Texto escrito por mim e originalmente publicado aqui.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Proporção Divina...

Se for possível juntar uma raiz dos Sentidos que seja quadrada e lhe juntar aquilo que na Vida é uno; 
Dividindo esta soma pelas dualidades que se nos vão apresentando pela frente; 
certamente conseguiríamos obter a proporção divina das coisas...

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Política e Maçonaria Regular...

O próprio título desta publicação poderá parecer por si só uma possível contradição.

Uma analogia direta entre política e Maçonaria Regular nunca poderá ser feita em concreto porque em Maçonaria Regular não se discute política. E muito simplesmente porque tal não é permitido pelas suas próprias regras, os seus Landmarks, que no seu sexto artigo impede que este tipo de discussão possa ter lugar numa loja maçónica. 

Mas no que ao tema deste post concerne, a proibição existente em relação à abordagem de temas políticos numa sessão maçónica é apenas em relação à discussão e debate de ideias relativas à política partidária. Porque abordando a política como conceito em si, conceito este como sendo algo que é assumidamente necessário para quem vive na sociedade, a postura da Maçonaria Regular é diferente.

O conceito político, quando abordado no seu sentido lato, é permitido seja em debates meramente filosóficos ou que tratem de temas sociológicos ou antropológicos. Nestes casos,  as ideologias são facilmente postas de parte. Pelo que efetivamente nunca se discute se o pensamento político de “direita” ou de “esquerda”, ou se uma monarquia ou  república serão os melhores sistemas políticos a serem vivenciados pela sociedade.

Salientando também que,  devido ao cumprimento do referido Landmark, não se discute se uma religião é melhor ou pior que outra. Política e Religião em Maçonaria Regular encontram-se no mesmo patamar.

- Alíás atrevo-me a dizer que para a Maçonaria Regular, ambos estes conceitos estão colocados naquelas prateleiras muito altas que é usual se ter em casa, em que sabemos que as coisas lá estão, mas que não as conseguimos alcançar…-

Estas concepções de vida, políticas ou religiosas, a serem discutidas,  apenas o serão em em sentidos latos e meramente filosóficos. Até porque geralmente estes temas, a par da clubite desportiva, são os temas que mais dividem o Homem e fraturam a sociedade, e a Maçonaria quer-se como sendo um centro agregador de pessoas e nunca como sendo o seu foco de divisão.
Assim, relativamente à política partidária, cada maçom seguirá as políticas ou sentir-se-á representado pelo partido político que considerar que será o que melhor o representa ou que aplica e/ou defende as ideias que para si são consideradas como sendo as que maior valência deverão ser seguidas pela sociedade civil. E apenas isso.

Não obstante, é do conhecimento público em geral, que vários maçons são membros ativos de vários partidos políticos, muitos deles mesmo pertencentes a alas muito distantes politicamente e com um ideário político muito diferente e bastante divergente até. 
E isso é lhes possível  porque são livres para o fazer. 

Em nada a Maçonaria os impede de tal. Nem como instituição, nem os próprios maçons entre si, como membros desta Augusta Ordem. Cada um fará o que lhe aprouver quanto ao caminho que preferir percorrer, seja partidário ou não, e respeitará do mesmo modo, o caminho que o seu irmão decidir prosseguir…

Estes últimos parágrafos serão talvez alguns dos quais que mais confusão farão aos profanos e que podem suscitar certas teorias conspiratórias, uma vez que, pode-se sempre supor que, como poderá alguém que não se revê politicamente noutra pessoa, e que por vezes em debates mais acalorados, sejam eles no hemiciclo, sejam eles em qualquer tipo de campanha, em que algumas vezes podem inclusive roçar a falta de respeito, para depois dentro de portas ou na sua intimidade, serem amigos e considerarem-se como Irmãos?!

A própria questão encerra a sua própria resposta.

Não temos nós irmãos, familiares e amigos que têm opiniões contrárias às nossas?

Não levam eles, em alguns casos, vidas muito diferentes da que levamos?

Não têm eles concepções de vida muito distantes daquelas que consideramos como sendo as mais válidas?

Quantas vezes em debates de ideias mais acesos, não nos chateámos e depois tudo ficou resolvido como nada se passasse?

Sim, todos nós na nossa vida, passamos ou alguma vez passámos por esta situação. 

E fraternidade é isso mesmo, é ter bastante respeito pelo próximo, consagrar o direito à diferença de opinião, ser tolerante em relação a diferentes pontos de vista, e ter uma postura coerente no âmbito do debate.

Por isso é que a Maçonaria sobreviverá per si, independentemente do posicionamento político dos seus membros. 
Tudo devido ao sentimento fraternal que estes têm entre si e que os fará colocar de parte qualquer antagonismo que possa ser  motivado, neste caso,  por questões político-partidárias.

E depois no que toca à questão partidária, esta não se coloca à Maçonaria mas sim ao Povo, que como integrante fundamental da sociedade tem o dever de participar nela e contribuir para o seu progresso.

 Assim, cabe ao maçom, sendo ele mais um elemento que faz parte do povo, participar como cidadão e como parte interessada nesta questão.

O compromisso que o maçom assume com a Ordem é um compromisso de ordem moral e ética, e que não envolve sequer, qualquer forma de política neste comprometimento.
Pelo que nada melhor que o seu exemplo e conduta para servir de paradigma aos outros. 

Logo, pelos seus valores, o maçom nunca poderá agir impulsivamente nem de forma irrefletida, porque para além de não ser a forma de correta para alguém agir, e depois porque está em permanência debaixo do jugo da sociedade; assim o maçom que seja ativo politicamente na sociedade em que está inserido, deve observar sempre o cumprimento dos valores maçónicos. 
Porque estes valores em nada colidem com a liberdade de ninguém e muito menos com os direitos de todos.


 E se hoje em dia vivemos como vivemos, uma boa parte resultou de um trabalho imenso e intenso por vezes, que alguns  maçons de outrora tiveram e que propiciaram para que hoje em dia possamos usufruir  das condições que temos e que nos permitem ambicionar por mais e melhor...

Post Scriptum: Texto da minha autoria, editado e previamente publicado  aqui.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Maçonaria, uma Instituição universal e cosmopolita...

Nos séculos XV e XVI devido à necessidade de se construírem várias construções de cariz  religioso ao longo de toda a Europa, e para mais facilmente circular entre reinos e poderem trabalhar, os operários da construção civil da época filiavam-se em agremiações de tipo sindical para que desse modo lhes fosse possível arranjar trabalho e exigirem alguns direitos e melhores salários. O que deu origem aos termos “pedreiros-livres” e “franco-maçons”, uma vez que eles estavam livres dos pagamentos de certos tributos e de portagens nos reinos onde trabalhavam.

E como o trabalho que os construtores tinham de executar era normalmente demorado, apesar de ser um trabalho nómada, (porque quando finalizavam uma obra seguiam para outras terras, para outros trabalhos), reuniam-se no seio dessas associações ou grémios que eram denominadas por  “guildas de construtores” para poderem conseguir manter a sua coesão e união enquanto grupo de operários especializados e também para que lhes fosse possível transmitir e ensinar os segredos da sua arte a coberto dos olhares indiscretos de quem não pertencia a este ofício. Criando desse modo um tipo de fraternidade entre eles.

Mais tarde, nos finais do século XVI, quando as grandes construções religiosas (catedrais e abadias) se encontravam finalizadas e como não existiam nenhumas grandes obras a serem iniciadas a longo prazo,  e como o número de membros destas guildas começavam a decair, estes grémios de construtores começaram a aceitar como seus membros, elementos de outras profissões dos locais onde se estabeleciam dada a curiosidade que estes tinham em relação ao que se passava e discutia no interior destas associações.

O que consequentemente em virtude dos temas que nessas lojas agora se debatiam, que já não eram somente dedicados à construção de edifícios e porventura também da entrada destes novos membros, designados por “maçons aceites”, veio este movimento a dar origem a uma transformação deste tipo de maçonaria, assumidamente operativa, numa maçonaria de cariz especulativo. Um género de maçonaria que já não trataria das construções físicas, mas que em seu lugar, tratariam de um tipo de construção espiritual. Aproveitando os maçons especulativos, o vasto simbolismo que os construtores detinham e que passaram a tomar como seus. Assumindo que em vez de construírem espaços para glorificar o divino, seriam eles o seu próprio templo a cultuar.

E já no decorrer do século XVII, quando os partidários dos Stuart (casa real) vindos de Inglaterra e fugindo ao seu regime vigente, trouxeram consigo para o continente os seus ideais maçónicos, aproveitaram a liberdade que lhes era concedida  na França e abriram lojas (especulativas) onde se pudessem reunir e onde pudessem discutir as formas de resistência necessárias para os levar de novo ao poder em Inglaterra.
Sendo que no interior dessas lojas para além de conseguirem manter a sua união enquanto grupo de resistentes e debater que posições deveriam ser tomadas  neste tipo de luta, também conseguiam assim manter aceso o espírito fraternal que tinham entre eles.

Mais tarde, pela entrada nestas lojas de outras personalidades que nada tinham a haver com o espírito de resistência para o qual este tipo de lojas tinha sido criado bem como da criação de outras novas lojas maçónicas em terras francesas formadas por franceses e/ou estrangeiros, a expansão em França estava lançada.

Na restante Europa, a expansão maçónica estava também em marcha, fosse pela transformação das lojas operativas (guildas de construtores) em lojas especulativas, bem como da criação de lojas militares itinerantes ou lojas locais onde a burguesia da época se reuniria para debater as novas ideias que viam a luz do dia  nesses tempos.

- O que se pode constatar é que independentemente da sua denominação (operativos/especulativos), os maçons sempre se reuniram em alguma espécie de agremiação para debater as suas ideias, deixando de fora gente que não considerassem como “bem-vindos” ou que não lhes trouxessem qualquer mais valia para o debate de ideias. -

E já no século XVIII, os maçons impulsionados pelo ideário maçónico e pelo idealismo das Luzes e com o auxílio indireto da expansão colonialista europeia para as “novas terras das Américas”, contribuiram relevantemente para o estabelecimento da Maçonaria nesses locais.

Fosse  nas ilhas caribenhas ou no próprio continente americano, em qualquer porto em que os barcos vindos da “velha Europa” aportassem, traziam consigo maçons que para além das relações comerciais que teriam com os povos nativos, se  viriam a estabelecer de forma permanente nestas terras. E estes maçons apoiados pelo facto de nestes lugares existirem também lojas maçónicas formadas por militares – uma das maiores fontes do expansionismo maçónico no mundo deve-se a este tipo de Lojas que costumam estar associadas a um determinado batalhão ou companhia militares – conseguiram em alguns casos, montar uma estrutura local e que não fosse nómada como é o caso da generalidade das lojas militares maçónicas. Desta forma ficaram estabelecidas as raízes para o crescimento e consolidação da Ordem nas colónias americanas. E não obstante o aumento da imigração europeia para as Américas e com a transformação destas povoações em grandes metrópoles posteriormente, também a Maçonaria teve um crescimento proporcionalmente direto e hoje em dia estimam-se que na totalidade do continente americano existam mais de 5 milhões de maçons.
Para além do colonialismo americano, também o colonialismo africano e asiático pelos povos europeus possibilitou a chegada da Maçonaria a estas partes do mundo e se estabelecer de uma forma mais ou menos gradual face à cultura e sistemas políticos vigentes nesses países.

Atualmente, do norte ao sul do globo terrestre, a Maçonaria encontra-se implantada em quase toda a parte. Sobressaindo assim o carácter universal desta Augusta Ordem. E, independentemente do regime político, desde que seja considerado como democrático, a Maçonaria convive de forma natural com as leis do local onde se encontra estabelecida. Seja em países monárquicos (um bom exemplo que temos é o continente europeu, onde a Monarquia, nos países nórdicos, se encontra consolidada) ou países republicanos (exemplificados pelo continente americano, que na sua totalidade é formado por repúblicas democraticamente eleitas), com governos eleitos designados de direita ou de esquerda, a Maçonaria existe.
Porque apesar da alternância dos poderes políticos, a Maçonaria sempre persistirá. E o fará, porque ela própria não tem doutrina política, a Maçonaria está num patamar acima das discussões partidárias ou de qualquer questão que possa dividir os Homens.

A Ordem Maçónica é uma instituição agregadora de pessoas por isso nunca poderia fomentar a divisão entre elas..

Todavia, a Ordem não impede que os seus membros exerçam no mundo profano os seus deveres e direitos cívicos conforme os princípios que escolham praticar na suas vidas profanas, sejam eles políticos (ou outros) que considerarem que lhes sejam mais favoráveis ou com os quais melhor se identifiquem. E isso pode ser verificado pela prática política de alguns maçons que participam efetivamente no mundo político sem que tenham qualquer diligência maçónica nesse sentido 
- Agindo somente com a sua convição e o seu pensamento.-

 Nomeadamente se pode dizer o mesmo  no que respeita às suas filiações associativas, tenham elas o cariz que tiverem ou à religião que os maçons decidam (ou não, no caso de Maçonarias Liberais) observar. E isto pode acontecer porque o compromisso que se toma com a Maçonaria é um compromisso de ética e de respeito na observância dos valores morais existentes; logo este compromisso estará acima de qualquer tipo de política ou agremiação. Sendo por isso que me é possível afirmar neste contexto que : “O maçom faz, a Ordem apenas observa…”.

O próprio cosmopolitismo que é inerente à Maçonaria permite tais factos.

A Maçonaria ao deter um carácter universalista e progressista que ultrapassa qualquer fronteira e por se reger por valores de igualdade, fraternidade e de solidariedade entre os seus membros, propiciou que a ação dos seus afiliados no mundo profano seja um reflexo dos seus próprios valores. E como os valores maçónicos são valores que são transversais à sociedade e ao mundo em si, não existe um lugar onde um maçom não possa se encontrar  ou que esteja impossibilitado de  agir…

Logo, ao ter a Maçonaria criado as bases para o diálogo e para o debate de ideias nas suas lojas e tendo posteriormente transferido estas competências também para o espaço público, sendo as lojas maçónicas consideradas como centros formadores de opinião e o espaço público como sendo o local de aplicação das vontades profanas, fomentou na sociedade a ideia que a tolerância aplicada de forma salutar na discussão de ideias, contribuiria para a obtenção de consensos sem que se tivesse de passar por um qualquer conflito para chegar a tal.

Apenas discutindo e debatendo com respeito e elevação é que é possível se criarem as condições válidas para se poder chegar a um determinado consenso que possa ser valorizado como sendo o melhor para ser aplicado ou cumprido pelos intervenientes na discussão. Nem sempre a posição dominante prevalece, mas sim a opinião que fará mais sentido para a generalidade. E isso somente é possível se existir algum sentido de tolerância e respeito pelo próximo e de se ter a capacidade de nos sentirmos como integrantes de algo superior a nós próprios. Copiando a sociedade desta forma, uma praxis maçónica há muito existente.

No entanto quando se fala em Sociedade, Civismo ou inclusive em Política, abordamos conceitos que estão para além de nós, e a melhor forma de se conseguir ou atingir o bem comum, para além de um diálogo franco e tolerante, é reconhecer no outro a sua diferença de opinião como algo que pode fazer evoluir e enaltecer o debate público. Por isso no seio da Maçonaria Regular não se aborda política partidária mas poder-se-á em determinado contexto, abordar a Política como sendo mais um conceito necessário a quem vive em sociedade. Sociedade esta, que já não será apenas o local onde nos encontramos ou em que vivemos, mas o mundo na sua plenitude.

Mas apesar de toda esta evolução civilizacional que nos foi permitido alcançar, a própria Instituição Maçónica dada a sua linguagem simbólica e do seu carácter quase indecifrável aos profanos, conseguiu permanecer quase inalterada desde a sua origem até à atualidade. O que facilita e permite que em qualquer parte do mundo  (mediante a respetiva tradução linguística, se necessária) a qualquer iniciado nos mistérios da Maçonaria poder reconhecer facilmente aquilo que observa ou escuta. Tanto que ao nível da ritualística maçónica, para os maçons que visitem outros países e tenham a honra de serem acolhidos nas lojas maçónicas locais, mesmo que não compreendam a língua nativa, conseguem estar sempre integrados no ritual que se pratique nas lojas maçónicas - pois o conhecem -, e mesmo as mais ligeiras adaptações que possam ter ocorrido fruto do tempo ou de traduções feitas aos rituais originais, esse cumprimento do ritual será sempre perceptível para quem o assiste.

E dado que a forma como hoje em dia o Homem se desloca pelo mundo também evoluiu, e que esta “viagem pelo mundo”, seja em trabalho ou em turismo, pode ser feita de uma forma bastante mais lesta que antigamente, também a nossa visão do mundo foi evoluindo. Já não olhamos para nós como pertencentes a um lugar somente  mas como pertencentes ao mundo na sua globalidade. Apesar das diferentes identidades nacionais se manterem - e ainda bem!- o resto se vai esbatendo. As relações económicas, judiciárias e culturais entre países atualmente  são de tal forma evoluídas na sua interação, que em determinado país poderemos conhecer ou saber o que se passará noutro qualquer, bem como nos é permitido deslocar sem qualquer entrave à circulação. O que é sempre determinante para o modo de vida que atualmente levamos.
E devido ao facto de o maçom ser alguém que se considera livre e que vive e exerce a sua liberdade em qualquer parte, o maçom é um “cidadão do mundo”, isso permitiu-lhe que lutasse também pelos valores em que acredita e que acima de tudo são os valores da Maçonaria. Assim, foi através da sua ação por este mundo fora, que foi possível criar as bases para a implantação e reconhecimento de garantias ao nível dos Direitos Humanos, o direito à escola pública, o direito à saúde pública, a laicização dos estados (no sentido de que nenhuma religião se sobreponha ou seja enaltecida em detrimento das restantes), o ataque ao trabalho infantil e a emancipação da Mulher, entre outras lutas das quais os maçons fizeram e  ainda fazem parte pelo mundo fora.

Assim, em jeito de conclusão, combater as trevas, a tirania e a ignorância, propiciando o progressivo bem-estar da humanidade, são os labores que os maçons assumem para com a sociedade e apenas tal é exequível globalmente porque a Maçonaria é universal e cosmopolita.

Post-Scriptum: Texto escrito por mim e originalmente publicado aqui.

Bibliografia:
·  “ O Cosmopolitismo estóico” de Diego Carlos Zanella.
·  “A Franco-Maçonaria”, Paul Naudon, Publicações Europa-América, 2000, ISBN 972-1-00925-3
·  “ da rosa, da fénix e do pelicano compreender o ritual do 1º ao 18º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito”, António Lopes, Campo da Comunicação, 2013, ISBN 978-989-8465-14-6
· “A verdadeira história da Maçonaria”, Jorge Blaschke-Santiago Río,Editorial Planeta, 2006, ISBN 978-972-8998-34-9
·  “Maçonaria Universal uma irmandade de carácter secreto”, Míguel Martin-Albo, Bertrand Editores, 2012, ISBN 978-972-2525-15-2.