sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Peculiaridades singulares do Ofício de Venerável Mestre...

Como tema para o texto que publico hoje, escolhi a figura representativa da estrutura de uma Respeitável Loja Maçónica,  o seu Venerável Mestre.

O cargo de Venerável Mestre é ocupado por um Mestre do quadro de Obreiros de uma Loja que foi eleito pelos seus pares para esse efeito.

Das várias funções ou atributos que lhe são confiados fazem parte a direcção (administrativa e espiritual) da Loja e a representação da Loja e seus obreiros na estrutura da Obediência em que se encontra filiado.
- O que parece pouco, mas não o é!-

A origem deste cargo ou função - E eu sou dos que prefere que este seja considerado apenas como um “Ofício”, pois se é instalado nesse Ofício, e por isso mesmo o Venerável Mestre é um “oficial da Loja”, e tal, não como um cargo em si, e explicarei adiante o seu motivo - é remetida para tempos imemoriais e também à época das guildas de construtores de catedrais e profissões ligadas à Ars Structoria (Arte da Construção) na Idade Média, em que um Mestre entre os mestres ou companheiros encarregados pela execução de uma obra, seria escolhido para dirigir os seus trabalhos e para tal era designado o "Mestre da Loja". 
A permanência do eleito para o ofício nesse cargo era variada e tanto poderia ser renovada anualmente ou apenas permanecer nela durante o tempo que durasse a obra em que se encontrava a laborar.

Mas o que me remete para este tema, em que analiso o ofício de “Venerável Mestre”, não é a sua “origem” ou funções acometidas, mas sim algumas singularidades peculiares que se afiguram ao mesmo.

Geralmente é eleito ou candidato a tal, alguém a quem foram reconhecidas capacidades para que possa exercer essa função, a mais alta em Loja, durante determinado tempo – regra geral, é uma função anual – e que nos tempos transactos tenha tido como função ter sido Vigilante da Loja. Função esta que se divide em outros dois "ofícios", o Primeiro Vigilante e o Segundo Vigilante, que são em conjunto com o Venerável Mestre, as “Luzes da Loja”, isto é, os seus “Oficiais maiores” assim por dizer…

Os Vigilantes têm como principal função a formação dos Obreiros a seu cargo respectivamente e auxiliar o Venerável Mestre na condução ritual dos trabalhos maçónicos da respectiva Loja.

Mas voltando ao tema, se se espera que a pessoa que será eleita para o exercício deste ofício de Venerável Mestre seja uma pessoa bastante capacitada seja pelo seu conhecimento ritual, administrativo  ou até pela sua forma de estar na vida, uma coisa é certa, depois de eleito e durante a aplicação e execução do Ritual em Loja, o Venerável Mestre parece ser a pessoa que menos conhece a sua ritualidade e formas administrativas; o que poderia significar que tinha sido eleito para guiar os destinos da Loja, um mestre impreparado para tal desígnio. 

E este sim, é o tema fulcral do texto que apresento. 

O facto de o Venerável Mestre, a pessoa que a Loja elegeu, o membro a quem confiou e entregou os seus destinos para um determinado tempo – o Veneralato – ser a pessoa que durante o Ritual mais dúvidas tem e que apresenta ou até a pessoa que mais perguntas faz… 
Seja tanto para obter “conhecimento” como para se certificar de algo. O certo é que as faz! E nem as deixaria de (poder) fazer.

Para quem é Iniciado nestas andanças saberá que os questionamentos que o Venerável Mestre faz, fazem parte integral do cumprimento e observância do Ritual em execução na Loja e não de qualquer ignorância da sua parte – nem o poderia ser! -, mas tal se visto pelo prisma que Vos apresento, por certo chegarão à mesma conclusão que eu, hipoteticamente falando!

Antes demais, vou explicar de forma ligeira porque prefiro dizer que se é investido ou instalado numa função ou ofício e não num cargo.

Primeiro, porque um cargo remete para autoridade e afins… 
Quanto a mim o problema não reside na autoridade, porque a mesma faz falta, o problema é mesmo os “afins”…

Segundo, quando alguém exerce uma função ou ofício, apenas as tarefas designadas a tal serão executadas e nada mais…  
E é isso que se espera que seja cumprido! 

Para além de que alguém investido numa qualquer coisa, saberá que tal exercício será meramente temporal e dependente da vontade de outrem e não apenas exclusivamente da sua. Já os cargos por vezes se podem assumir como definitivos... 
Poderia parecer apenas uma mera questão linguística e de semântica, mas parece-me que é de uma relevância tal que não deve ser descortinada por ninguém.

Por isso é que digo que prefiro que tal função de Loja seja um ofício por isto mesmo!

Alguém é escolhido para desempenhar a função, executando as tarefas que lhe são relegadas e deve-o fazer com espírito de missão e entrega e fazendo-o porque sabe que assim o deve fazer.
Já por sua vez, se estivesse a cumprir um cargo, poderia esse alguém esperar algo diferente daquilo que é o propósito desse ofício e o exercesse de uma maneira que não fosse a mais correcta para tal.

E se habitualmente os cargos ostentam-se, as funções são cumpridas e os ofícios desempenhados...

E é por isto que citei que facilmente se pode concluir que considero que o "Venerável Mestre não faz a Loja", mas sim o seu inverso, ou seja, "a Loja é que faz o seu Venerável Mestre", pois este foi escolhido e sufragado pelos demais e devem estes, por isso mesmo (!), no auxiliar naquilo que ele necessite para levar a bom porto a missão que, por todos, lhe foi confiada.

- Existe quem entenda o contrário e por isso aja dessa forma, tendo eu apenas que o respeitar dentro dos limites a que a Fraternidade e a minha tolerância assim me o obriguem a tal - .

Mas voltando ao tema, porque é que eu afirmo que o Venerável Mestre será o obreiro que no decorrer do ritual e em sessão de Loja é a pessoa que mais desconhecimento tem sobre o que por lá se passa?!

Porque:

·        Para saber se os Maçons que se encontram no Templo estarão a coberto dos profanos nos seus trabalhos de Loja, tem de questionar um dos Oficiais da Loja;

·        Para estar salvaguardado que as pessoas que estão no Templo são filiados da Ordem, questiona outros Oficiais da Loja, bem como inclusive, até para saber onde ele e outros se sentam e os motivos para tal ,tem de questionar outrem para obter o conhecimento sobre tal facto, não podendo ele se sentar em qualquer sítio;

·        Para saber qual o horário designado para o trabalho em Loja  e o espaço temporal em que se encontra, tem de questionar outros Oficiais da Loja, não bastando apenas olhar para o seu relógio;

·        Para conhecer a identificação e a assiduidade dos obreiros efectivos da Loja, encarrega outro Oficial da Loja para o fazer, não bastando olhar em volta para ter a percepção de quem se encontra no Templo;

·        Também é um Oficial da Loja que lhe comunica e relembra qual a Ordem dos Trabalhos que o próprio Venerável Mestre definiu para essa Sessão;

·         Para abrir e fechar ritualísticamente os trabalhos da Loja tem de ser auxiliado por um conjunto de Oficiais, não o podendo fazer sozinho;

·     São outros Oficiais da Loja que se encarregam de administrar (ou auxiliar nesse sentido) nas questões financeiras, espirituais e fraternais da Loja. Nomeadamente o Venerável Mestre ainda questiona determinados Oficiais da Loja se quem se encontra na assembleia se encontra satisfeito pela forma de como os trabalhos foram realizados.

Por tudo isto (e mais que não expus) acima, é que poderia eu considerar que o Venerável Mestre será a pessoa que menos sabe o que se passa na sua “casa”.

E é por isso mesmo que também, que os seus Oficiais e restantes membros da Loja o auxiliam na execução desses mesmos trabalhos bem como na direcção da Loja.

Daqui se pode concluir o que eu afirmei anteriormente, e por estes mesmos motivos (!), que uma “Loja não é do Venerável Mestre, mas o Venerável Mestre é que é da Loja”, pois é a Loja que faz as “coisas” acontecerem, sendo o Venerável Mestre uma espécie de maestro que gere a orquestra, que neste caso é a Loja Maçónica da qual faz parte tanto como obreiro bem como ao mesmo tempo, investido na função que exerce. Um equilíbrio difícil por vezes…

Ou seja, o Venerável Mestre não está solitário na Loja bem como uma Loja não pode funcionar sem o seu Venerável Mestre.

- Para uns, isto é simples e fácil, para outros… “o cabo dos mundos”… -

O que é certo é que o exercício deste Ofício não pode nem deve ser levado como se fosse mais um “passeio pelo parque”, mas antes como uma demanda per si e pela Loja, e que a eleição para essa função foi o culminar de um período em que se encontrou ao serviço pela Loja e que começou quando foi Iniciado ao grau de Aprendiz e posteriormente por todos os ofícios que foi desempenhando ao longo dos tempos na Loja e pela Loja e que aquando o  final do seu veneralato, nesse momento, se remeterá às Colunas ou à função que o seu sucessor considere como sendo a mais válida para a Loja em si. Apartir de aí, outro mestre, por todos eleito, seguirá nos “comandos" da Loja; seguindo-se um ciclo repetido vezes sem conta desde o “início dos tempos”…

Assim e simplificando o assunto, o Venerável Mestre apenas será aquilo que a sua Loja queira que ele seja. 
E esta é que é a peculiaridade verdadeira que se pode assacar à função que ele exerce na Loja.
Porque o que importa, realmente, é a Loja… 
O resto, é simples “matéria e espírito”!
(Ou o Ego de alguns... e isso não tem qualquer valor em Maçonaria).

PS: Obviamente foi com alguma leveza e “mente aberta” que abordei o tema, pois de facto na realidade, o Venerável Mestre tudo conhece sobre o que se passa e deve passar no seio da Loja a que preside.
Mas não deixa de ser peculiar a forma de como é executado o Ritual e os “porquês” dos questionamentos que são feitos pelo Venerável Mestre no decorrer dos trabalhos da Respeitável Loja . 
Mas isso já são “contas para outro rosário”…

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Perspectivas reais...

Quem já teve a oportunidade de ler algum dos textos que eu vou escrevendo, porventura já terá reparado que algumas vezes costumo afirmar que na mais simples coisa se pode encontrar a presença da Arte Real.

Naturalmente que só vislumbramos algo se o conhecermos, bem como reciprocamente, que só poderemos encontrar aquilo que efectivamente  procuramos.

Aliás, existe até mesmo um silogismo religioso e iniciático que diz que “quem procura, encontra”.
E eu acrescento que pode mesmo encontrar!

Pode é nem sempre ser tão lesto como se poderia desejar, mas com trabalho, empenho, paciência e muita perseverança, tal poderá ser concebível.

Mas por vezes é possível encontrarmos algo mesmo que não estejamos à procura de alguma coisa e essa descoberta, algumas vezes fascinante, é algo que nos pode motivar e impelir para ir mais além, demonstrando de certa maneira, que o caminho que escolhemos tomar é o que melhor se nos aplica.

Por isso, não são raras as vezes que encontro a presença da minha(/nossa)arte, em coisas tão simples como em frases ditas por alguém que nem sempre está identificado com os princípios de vida que observo, ou em canções ou músicas que nem sempre são aquelas intemporais ou mais comerciais que é usual conhecermos ou outras que poderíamos relacionar com algo mais místico ou metafísico até, ou inclusive até mesmo em simples construções onde a presença da Maçonaria poderia ser assumidamente dada como inexistente.

Quando encontro algo que relaciono directa ou indirectamente com a Arte Real é porque detenho um conhecimento que me permite reconhecer essa presença, ou pelo menos, a supor.

Mas tudo isto, apenas pode ser feito através da minha perspectiva, da minha visão, dos meus princípios morais e da minha experiência de vida. É a perspectiva que tenho sobre tal, que me permite esse facto.
Pois as mesmas coisas, os mesmos objectos, as mesmas músicas, poderão na perspectiva de outrem, pouco ou nada ter a ver com a opinião que tenho sobre essas mesmas coisas. Tudo na vida depende da nossa perspectiva e da nossa opinião e é a nossa perspectiva que tudo define.

Aquilo que eu vejo e sinto, podem outros também o ver e sentir, tal como outros poderão nunca o fazer…

Mas aquilo que eu vejo, sinto, saboreio ou toco, apenas poderá acrescentar mais valias à minha vida se eu tiver a noção disso mesmo, caso contrário apenas serão meras sensações que sentirei e que pouco ou nada me trarão de novo ou de positivo para o que eu espero da vida.

Todavia, enquanto eu olho para algo através da vista de alguém reconhecido como maçom, um estudante de Teosofia, um Rosa-Cruz, um membro de outra via iniciática qualquer ou que tenha alguma perspectiva espiritual diferente da minha, encontrará outras coisas que não me serão possíveis encontrar.

Primeiro, porque não as procuro, mas principalmente porque não as conheço. E sem as conhecer, nunca me será possível as reconhecer…  

Todavia, alguém não iniciado nestas “andanças”, também não o conseguirá fazer  porque não as conhece, e também porque sem as conhecer,  também não as poderá identificar.

O que poderá fazer no entanto, é tentar perceber o que é aquilo que observa, e quanto muito, se auxiliado correctamente, é apreender, através da boca de quem lhe vai debitando noções ou percepções daquilo que estará à sua frente.
O que é sempre diferente de reconhecermos algo e aquilo que nos dizem que será ou que poderá ser na realidade…

- Existem sensações que são necessárias vivê-las, experimentá-las, para se saber verdadeiramente o que são… As nossas experiências, as nossas vivências são determinantes na nossa vida, pois elas são responsáveis por aquilo que somos, por aquilo que pensamos e por aquilo que fazemos…-

Quantas vezes não estivemos nós em excursões ou em visitas a museus, castelos, igrejas, espaços culturais, etc, onde fomos guiados por alguém?

E em ocasiões em que tal era a primeira ou a segunda vez que visitávamos esses locais?

E que à medida em que íamos ouvindo o nosso guia, íamos adquirindo novas percepções sobre o que estávamos a ver?

Ou em visitas posteriores aos mesmos lugares, em que observávamos já com olhos diferentes aquilo que estávamos a contemplar, fruto dos conhecimentos que fomos ganhando entretanto?!

A nossa opinião bem como a nossa perspectiva sobre algo é mutável, evolui.

Já alguém dizia que só “os ignorantes não mudam de opinião” e quem não muda, não consegue progredir. E sem progredir, o Homem estagna, definha…

Por isso é tão importante a perspectiva que temos das coisas e quanto menos ambígua for essa perspectiva mais depressa poderemos definir aquilo que encontramos ou aquilo que observamos como sendo (o) verdadeiro e/ou o mais correto.

E a nossa experiência de vida, o nosso empirismo, terá um papel fulcral no auxílio de validar aquilo que se nos é apresentado pela vida.

Através da nossa experiência é nos possível adquirir uma visão das coisas, que sem ela, não nos seria possível obter.

Não basta se olhar alguma coisa simplesmente olhando, há que se olhar com olhos de quem quer ver
E isso é o mais importante, porque só agindo assim poderemos alcançar o conhecimento, actuando de forma deliberada e tendo a noção do que (o) estamos a fazer .

-A nossa perspectiva será sempre a “nossa”. Outros terão as “deles”.-

Devido a diferentes experiências de vida, diferenças culturais, sociais, económicas e educacionais, existem várias formas de se olhar e analisar a mesma coisa.

Tanto que na maioria das vezes, temos como opinião que, se as perspectivas dos outros forem semelhantes à nossa, facilitam-nos o nosso inter-relacionamento humano, e que se forem contrárias ou divergentes às perspectivas que temos, possibilitam-nos outras novas aprendizagens e também a comunhão e partilha de diferentes pontos de vista, originando o debate dessas diferentes  ideias. Sendo isto, algo que considero também como bastante necessário para o progresso humano.

E é para o progresso do ser humano que os maçons trabalham! Seja através da sua acção no mundo profano, seja através do seu trabalho nas suas lojas maçónicas…

Por tudo isto, dependendo apenas da perspectiva que se poderá ter acerca de algo, foi-me possibilitado fazer esta reflexão que convosco partilhei.

Foi apenas a minha perspectiva que enunciei e nada mais!

Se correta, se errada, apenas outrem a poderá sufragar e dar-lhe o valor que considerar que ela valha.
Quanto a mim e para aquilo que pretendo da vida, por enquanto, vai servindo perfeitamente…


PS: Texto escrito por mim e publicado previamente aqui.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

São João e a Conduta Maçónica...

Quando se fala em São João pensa-se por mera associação lógica que deverá se tratar de um único João. Mas não posso falar apenas de um pois não se trata de um João só, nem mesmo apenas de dois. 
São João Baptista e o São João Evangelista são os “habituais” Patronos da Maçonaria; mas no decurso da minha investigação para a execução deste Trabalho, “descobri” um outro João, um terceiro São João. Um que é conhecido tanto por “São João de Jerusalém” como por “João, o Esmoler”.

Por isso vou tentar abordar um pouco as características maçónicas de cada um e tentar chegar a uma conclusão “que se não o for, bem o poderia ser”.

Comecemos a análise portanto:

São João, O Baptista, primo de Jesus, foi o profeta que anunciou a sua vinda, e  foi lhe consagrado pela Igreja de Roma o dia 24 de Junho.
Chamavam-lhe de “ o Baptista” porque ele baptizava os gentios nas margens do rio Jordão e os tentava converter à religião Judaica, a religião do Deus único de Moisés e de Abraão. Ele com o seu baptismo, iniciava os gentios, sendo por isso um “iniciador” de pessoas. Ele próprio baptizou, iniciou Jesus.

João Baptista é considerado também como um “anunciador”, pois também ele previu a chegada de um Messias, o Cristo que iria salvar a Humanidade.

Ele no percurso da sua vida ensinava as pessoas a serem humildes, a renunciarem a si próprias (submetendo as suas vontades aos seus deveres e a evitarem o Egocentrismo) e a pensarem e a preocuparem-se mais com os seus semelhantes (princípios éticos que Jesus Cristo também assumiu ao longo da sua vida).

A sua conduta passava pela justiça dos seus actos, a humildade e a ascese com que levava a sua vida; ele próprio chegou a pregar no deserto. O próprio silêncio que envolve a “caminhada no deserto” está associado ao silêncio a que está sujeito também o Aprendiz Maçom em Loja.

João Baptista era intolerante com a fraqueza e denunciava sistematicamente os vícios e a iniquidade a que assistia ao seu redor. Atitude esta que também o Maçom deve tomar, combatendo os seus vícios e paixões, sendo humilde e inimigo da fraqueza.

E foi em consequência dos seus ideais que João Baptista foi aprisionado por Herodes Antipas em Jerusalém, que num torpor de amor pela sua enteada Salomé o mandou decapitar.
Essa decapitação, em Maçonaria está (na minha opinião) simbolizada também num determinado juramento e sinal executado pelos Maçons. No qual o Maçom prefere ter a sua garganta cortada do que referir os segredos que lhe foram confiados. Sigilo este simbolizando o silenciar dos "segredos" que qualquer Maçom está obrigado a cumprir sobre tudo o que oiça e veja em Loja.

João Baptista ao querer permanecer fiel aos seus princípios pagou cara a sua postura. Essa verticalidade, essa rectidão e integridade de princípios são hoje em dia um dos deveres dos Maçons que se querem Homens rectos e de boa conduta; estando essa qualidade simbolizada na jóia do Segundo Vigilante, o “prumo”.

Um facto curioso é que o próprio vestuário de João Baptista, a sua túnica, está também representada no avental do Aprendiz, na pele de cordeiro (branco) de que é feito o material do mandil do Maçom.

Os Maçons, devido à sua Iniciação, também se consideram filhos da Luz, tal como os Essénios, membros da comunidade de Qumran à qual João Baptista também pertencera na sua juventude. O juramento que era feito pelos Essénios, e por sua vez também por João Baptista, era de amar a Deus, de justiça misericordiosa para com todos os homens e pureza de carácter, o que implicava humildade, praticar o bem e a verdade, relegando a falsidade e a malícia; tendo eles uma enorme reserva sobre os seus rituais e doutrinas secretas em relação a estranhos. Características assumidamente maçónicas. 
-A própria Maçonaria as tenta inculcar nos seus membros.-
         
Quanto a São João, O Evangelista, ele foi um dos discípulos e Apóstolos de Jesus Cristo, sendo considerado por alguns teólogos como o discípulo preferido.

É considerado como " o Evangelista" porque escreveu um dos quatro evangelhos canónicos aceites pela Igreja de Roma, que talvez de todos os evangelhos conhecidos seja o Evangelho com maior pendor simbólico e esotérico. Estando contido nele o Livro das Revelações, o “Apocalipse”.

João Evangelista quis deixar uma mensagem de Paz e Amor ao Homem, a palavra que Jesus Cristo professava, sendo por isso considerado como o “Apóstolo do Amor”.

Também em Maçonaria se deseja esse amor, o “amor fraternal” entre os Homens, que se querem Irmãos entre si.

A conduta e forma de estar de João Evangelista, a sua pureza e inocência (era o mais jovem dos apóstolos), a sua amizade e lealdade a Jesus até à sua morte, também nos mostra como nós, Maçons, devemos seguir tais ensinamentos nos nossos relacionamentos e conduta de vida bem como nos mantermos fieis aos bons princípios morais que devem guiar as nossas vidas e atitudes.

Após a morte de Jesus na cruz, João Evangelista ficou encarregado de cuidar de Maria, mãe de Jesus. Sendo que à época, Maria seria já viúva. 
Por analogia com a Maçonaria, João Evangelista tomou às suas responsabilidades a viúva, tal como os Maçons devem fazer com as viúvas de seus irmãos.

E também ele, tal como João Baptista, sofreu na sua pele a firmeza e integridade em seguir os seus princípios, os ensinamentos de Jesus Cristo. Tendo sido martirizado pelo Imperador romano Domiciano, que mais tarde o desterrou para a ilha de Patmos, onde lá permaneceu até à sua morte. Com essa postura de mártir, João Evangelista deu mais um exemplo a ser seguido pelos Maçons, o de serem firmes na sua conduta e persistentes no seu desejo de aperfeiçoamento até ao fim da sua vida.

Enquanto João Baptista, foi o “preparador e o anunciador”, logo o iniciador; João Evangelista, simboliza o iniciado que recebeu a luz e que a partilha e a emana sobre os demais. Sendo esse também um dever do Maçom em relação aos seus Irmãos, partilhando a sua sabedoria e experiência de Vida, os ensinando e aconselhando.

Por sua vez, São João de Jerusalém, ou O Esmoler; ele nasceu na ilha de Chipre por volta de 550 e devido à sua formação cristã e atitude solidária e caridosa deslocou-se para Jerusalém a fim de construir um hospital que socorresse os peregrinos que acorriam à Terra Santa nessa altura.

João Esmoler era contemporâneo das cruzadas que eram lideradas pelos cavaleiros Templários e neles se inspirou para exercer a sua solidariedade e hospitalidade para com o seu próximo.

Ele em vida, seguindo os preceitos templários como paradigmas da sua conduta, fundou uma Ordem de Cavalaria, a Ordem dos Cavaleiros Hospitaleiros, que mais tarde se alterou para Ordem dos Cavaleiros de Jerusalém, porque apesar da sua missão principal fosse receber e prestar cuidados médicos aos doentes, eles auxiliavam também os cavaleiros Templários nas suas incursões pela Terra Santa.

Mais tarde João Esmoler, regressaria ao Chipre, porque existia o risco de invasão da ilha pelas tropas turcas. Aí, ele viria a fundar a Ordem dos Cavaleiros de Malta, que para além da função hospitaleira e médica, tinha também funções de protecção e manutenção da paz. Apesar de serem uma Ordem Militar, não conseguiram conter as hostes turcas que invadiram a ilha.

Após o seu falecimento, o Papa em reconhecimento das suas acções e virtudes, o canonizou com a designação de São João Esmoler, apesar de ficar mais conhecido como São João de Jerusalém, por lá ter vivido grande parte da sua vida. 
Como o Papa o santificou, os cavaleiros Templários que tinham um enorme respeito e reverência por ele, o tomaram como seu patrono. 
De tal forma que a Maçonaria, herdeira também das tradições templárias, assumiu os seus ensinamentos e os tenta seguir, aproveitando a Maçonaria o facto de João ser considerado o “esmoler” e essa qualidade estar premente na conduta maçónica, na qual o Maçom deve ser caritativo e hospitaleiro, bem como solidário com o seu próximo. Glorificando-o a Maçonaria, através da designação de uma das funções atribuídas aos Oficiais de Loja, o de Irmão Hospitaleiro ou Mestre Esmoler (minha opinião).

Também Janus, o deus pagão das duas faces, está intimamente ligado a São João e à Maçonaria. 

Janús é o deus que dá origem ao nome do mês “Janeiro”, o primeiro mês do calendário cristão. Janeiro deriva da palavra latina “janua”, ou “porta”. E porta, por sua vez, é também o significado da letra grega “delta” que tem forma triangular e que em Maçonaria representa o Divino e em Loja está sobre a cadeira de Salomão, a cadeira do Venerável Mestre.
A dupla face de Janus simboliza também os dois "Joãos", o Baptista e o Evangelista. E como tal, na dupla face de Janus, a face voltada para o passado simboliza o Baptista, pois ele anuncia a vinda do Messias, e a face virada para o futuro simboliza o Evangelista, pois ele foi anunciador da palavra de Cristo.

Contudo, Janeiro é o mês que dá início a um novo ano, um renascer (futuro); para trás ficou o ano que findou (passado). Também a este deus estão subordinadas as Iniciações.
No ritual da Iniciação, também o candidato e recém neófito, tem um renascer, ele na Câmara das Reflexões, deixou o seu passado através da sua morte simbólica, e no fim da sua iniciação quando ele finalmente vê a Luz, ele está também nesse momento a ver o seu futuro, um futuro “iluminado”.

O próprio nome de Janus, na sua forma latina (Johannes), significa João.
E a similitude dos dois nomes é tal que um foi absorvido pelo outro, na cristianização (conversão forçada) dos povos pagãos.

Para além de que João, na sua forma hebraica (Jeho-hannam), significar “graças ou favor a Deus”. Ou seja, homem iniciado e iluminado. Assim uma Loja de São João, é local de reunião de um agrupamento de Iniciados, homens iluminados e favorecidos espiritualmente. Tal como se querem os Maçons. Sendo justo atribuir-lhes o epíteto de “irmãos de São João”.

As próprias Lojas Simbólicas, as Lojas que administram os três primeiros graus da Maçonaria, consagram os três São Joãos.
Elas se designam por “Lojas de São João”, em honra de João Baptista; sendo as mesmas abertas e dedicadas (ao G.A.D.U. e) a São João de Jerusalém, tal como o questionário feito ao Maçom à entrada de uma Loja, onde lhe é questionado ritualmente de “Onde vem?”.
Bem como, numa sessão de uma Respeitável Loja que siga o Rito Escocês Antigo e Aceite (o rito da nossa Respeitável Loja), se o Livro da Sagrada Lei for a Bíblia, ela se encontrará aberta na primeira página do “Evangelho de João”, honrando assim João Evangelista. Nela se encontram escritos os versículos:

No início era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele e, sem ele, nada existiria.
Nele estava a vida, e a vida era a Luz dos homens.
A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”.

A Bíblia ou outro qualquer livro sagrado (em Maçonaria Regular, são obrigatórios) estão sempre presentes, lembrando aos Maçons que eles devem ser crentes numa entidade/divindade superior a eles (e não ateus estúpidos tal como Anderson os considerava, nas suas Constituições…); sendo este um dos Landmarks da Regularidade Maçónica. Mas também demonstram estes versos em particular, a vitória da luz sobre as trevas, tal como sucedeu ao neófito na sua Iniciação ao grau de Aprendiz Maçom.

João Baptista e João Evangelista também estão representados em Loja, através das duas rectas paralelas que delimitam o círculo com um ponto no seu interior, com a Bíblia aberta sobre elas. Essas rectas para além de significarem os limites de acção do Maçom, persistindo ele em se manter fiel aos seus preceitos, não devendo ter receio em falhar; significam também que a consciência religiosa do Maçom é inviolável, devendo ele glorificar o G.A.D.U.

A invocação a São João Baptista e São João Evangelista em Maçonaria, tem origem na Maçonaria Operativa, uma vez que ambos os santos são patronos das guildas de pedreiros e profissões ligadas directamente à arte da construção (Ars Structoria) que existiam entre os séculos X e século XIV.

Mais tarde, da união de quatro lojas/guildas existentes na cidade de Londres, veio-se a formar a primeira Grande Loja de Inglaterra. Que teve como data de fundação o dia de São João Baptista de 1717, e a Grande Loja Unida de Inglaterra (que já integrava então a fusão da primeira Grande Loja de Maçons e a Grande Loja dos Modernos, sendo o culminar do cisma entre Antigos e Modernos) estabelecendo-se no dia de São João Evangelista em 1813; tendo São João Baptista um papel iniciador simbólico e São João Evangelista um papel finalizador, na fundação da Maçonaria Especulativa Regular no Mundo.

Concluindo, João Baptista e João Evangelista, apesar de diferentes entre si, estão intimamente ligados, tal como o terceiro, João Esmoler, os complementa; formando assim uma trindade joanina que se espelha num único São João global.
E visto que a Maçonaria salienta as qualidades e virtudes de cada um deles, imprimidas na atitude que se espera de um Maçom, o ser hospitaleiro, fraterno e protector de seus irmãos e suas famílias, íntegro nos seus princípios de boa moral, firme na sua luta contra as suas fraquezas, ser bom conselheiro, levando a luz/conhecimento aos outros…
Pode-se fazer a afirmação de que a Maçonaria tem um forte cariz e pendor joanita na conduta que deseja para os seus membros, sendo plenamente justificada a escolha dessa trindade de "São Joãos" para seus patronos.


Bibliografia:
·         Anderson, James, “As Constituições dos Franco Maçons", Ed. Campo da Comunicação.
·         Audoum, Jorge, “El Aprendiz e sus Mistérios”.
·         “Bíblia Católica Online” @ http://www.bibliacatolica.com.br
·         Carneiro, Jeová Neves, Prancha “O Evangelho de São João e o Salmo 133”, Revista “Arte Real Nº41”.
·         Castellani, José, Prancha “Porque São João, nosso padroeiro?”, Revista “Arte Real Nº4”.
·         Costa, Walter Veneziani, Prancha “São João e a Tradição Maçónica”.
·         Dellazzana, Flávio, Prancha “O verdadeiro Patrono da Maçonaria” @ http://www.maconaria.net/portal
·         Freitas, Eduardo, “Manual do Aprendiz Maçom”,
·         Martin-Albo, Miguel, “A Maçonaria Universal”, Bertrand Editora.
·         Meireles, Paulo, Prancha “De uma Loja de São João” @ http://www.rlmad.net
·         Naudon, Paul, “A Franco Maçonaria”, Edições Europa-América.
·         Rehder, Guilherme, Prancha “São João, Padroeiro da Maçonaria”, Revista “Arte Real Nº28”
·         “Ritual do Aprendiz Maçom”, GLLP/GLRP.

·         Sbaragia, Giselda, Prancha “Os Essénios”, Revista “Arte Real Nº28”.